DIÁRIO DE BORDO África Sudão O verdadeiro início da África no fascinante Sudão

O verdadeiro início da África no fascinante Sudão E-mail
Sáb, 04 de Dezembro de 2010 12:36

02 a 12/11/2010

Sem sombra de dúvidas, podemos dizer que nenhum país por nós visitado até agora causou tanto impacto quanto o Sudão. A total falta de recursos, cruel conseqüência da combinação entre um clima extremamente adverso e uma incessante guerra civil, faz do Sudão um país subdesenvolvido mesmo se comparado com seus vizinhos Egito e Etiópia, que não são, obviamente, potências mundiais. E o seu povo? Bom, aí é que o Sudão nos leva a refletir – os sudaneses são extremamente alegres e hospitaleiros. Assim como o povo sírio, eles conseguem ser a atração do seu país e nos levam a uma inevitável viagem interna e a um profundo questionamento de valores e princípios.

A aventura, para quem entra pelo sul do Egito, já tem início no próprio ferry que atravessa o Lago Nasser.  Observamos o carregamento de três embarcações: uma de passageiros, com suas imensas bagagens e mercadorias, e outras duas somente de mercadorias, incluindo uma balsa na qual são transportados os veículos. Este “evento” semanal é uma real experiência de superlotação e de serviços prestados sem a mínima preocupação com segurança, o que dirá conforto, a uma população sem opções. Quando se está visitando, nosso caso, toda a atenção volta-se para a excentricidade do que se vê, mas para quem utiliza o ferry como meio de transporte corriqueiro, não é, certamente, nenhuma diversão.

É profundamente interessante ver, e mais, participar do processo arcaico e tumultuado de carregamento e embarque dos ferrys – milhares de caixas, móveis, peças, etc.,  são transportados e embarcados artesanalmente. Ficamos entretidos vendo e registrando essa movimentação.

Como esse transporte acontece somente uma vez por semana, ele acaba por tornar-se um excelente momento para conhecer outros viajantes. O nosso grupo de overlanding era composto de três carros e uma moto. Ficamos amigos de Mirko, um alemão que estava fazendo o início da viagem sozinho, para depois encontrar sua esposa, em um defender preparado como trailer; Anita e Utha, duas alemãs que viajavam em uma Toyota Land Cruiser; e Boris e Sandra, de moto – ele, alemão, pra variar, e ela, holandesa. Combinamos que os motoristas ficariam com os veículos, resolvendo a parte burocrática e depois o embarque, enquanto os navegadores entrariam no barco de passageiros para garantir nosso lugar à sombra. Pouco antes do meio-dia estávamos prontos. Fiz um contato à distância com a Du, que estava no barco de passageiros, e concluí, pelo aceno positivo, que a nossa “área de acampamento” devia estar devidamente reservada e preparada no convés. Depois de uma hora junto aos carros, cansamos de esperar e resolvemos entrar no barco de passageiros. Junto com Anita, peguei o restante das nossas bagagens e me dirigi para a entrada. Era um tumulto generalizado! Um empurra-empurra digno dos tempos áureos do Maracanã. Só que aqui os “torcedores” levavam, em sua imensa maioria, bagagens e caixas na cabeça com o dobro do seu próprio tamanho. Para mim, acostumado com os Fla-Flus da vida, estava tranquilo. Porém, Anita não se sentiu bem e resolveu arremeter a entrada. Saí junto com ela e ficamos novamente próximos aos carros, esperando o tumulto diminuir.

Foi uma decisão acertada, pois meia hora depois tentamos novamente e o tumulto, que ainda existia, tinha perdido alguns graus na sua escala. Entrei e tratei logo de procurar a Du. A primeira visão do convés é inesquecível. Somente fotos e filmes são capazes de ilustrar o resultado obtido pela ocupação total dos espaços ao ar livre. Após nosso encontro, fomos almoçar. Depois de andar entre os tapetes já instalados, e de fazer algumas fotos, chegamos ao restaurante portando nossos “vales-refeição”. Por sorte, era frango, por azar, era servido com a mão. Olhamos ao redor e colocamos essa refeição na categoria “manda pra dentro!” da expedição e mandamos ver. O futuro não seria assim tão promissor...

Terminamos o almoço e fomos para o convés aguardar o momento de subir o Pezão na outra balsa. Quando começou a movimentação dos veículos, desci rapidamente para ao encontro do Pezão. Nessa hora, a Du resolver ir comigo para mais uma difícil investida ao banheiro. Quando chegamos próximos à porta, onde também ficava o banheiro, era uma confusão só. Deixei a Du próxima da porta e comecei e me enfiar no empurra-empurra, ainda por cima contra a correnteza. Nessa hora, a confusão era generalizada. Olhei para trás procurando a Du no meio da confusão. Vi somente um pedaço dela imerso em uma cabeçada sem igual. Fiquei preocupado e voltei. Quando cheguei perto, ela falou: “Caraca! Você não vai acreditar! Essa mulher acabou de desmaiar aos meus pés!”, apontando para uma obesa senhora que estava agora sentada no chão. “Maraca virou Central Park perto disso aqui!”, praguejei. “É isso aí! Manda pra dentro!”.

Esperei a Du alcançar o banheiro e voltei pra minha missão de sair, contra tudo e contra todos, do barco de passageiro. Saí! Todo suado, mas saí. Já anoitecendo, iniciamos as manobras para colocar o Pezão na balsa e depois voltei para nosso novo cafofo flutuante.

A noite não foi assim tão agradável. Tínhamos levado os sacos de dormir para forrar o chão, dentro do possível, e um lençol para nos cobrir. No meio da madrugada, uma água começou a vazar e molhou todo o saco de dormir da Du. Tivemos que levantar e dar um jeito de nos reinstalarmos.  Depois, o vento aumentou bastante e trouxe consigo um frio de lascar. A solução foi entrarmos nos sacos de dormir. Nesse momento, eles fizeram jus à vaga no Pezão e realmente nos salvaram. Dentro deles parecia outro mundo. Cobrimo-nos até as cabeças e ficamos iguais a lagartas em metamorfose.

Foi mais agüentar do que dormir. Não tínhamos a expectativa de passar uma noite agradável, e entendíamos que aquilo fazia parte da experiência – quaisquer poucas horas de sono que tivéssemos seria lucro. Acordamos bem quebrados. O sol trouxe consigo algum calor e conseguimos preparar algo para comer. Passamos pelo impressionante Abu Simbel, um antigo complexo arqueológico, quase na fronteira com o Sudão. Depois, foi só aguardar a chagada em Wadi Halfa, a nossa primeira cidade sudanesa.

Faltando pouco mais de uma hora para a chegada, eu e a Du decidimos nos antecipar e ir para a perto da porta de saída. Imaginar esse povo todo saindo ao mesmo tempo, com suas caixas e tapetes, era uma visão, no mínimo, preocupante.

Ficamos tentando aguardar perto da porta, ou pelo menos o mais perto que nos deixaram. O barco aportou e ficamos na expectativa por mais de meia hora. Depois de fazer uma parte da papelada burocrática, fomos encarar a saída. Era novamente um Maraca. Só que dessa vez os nervos estavam mais exaltados, pois todo mundo estava cansado e louco pra se livrar do processo e pisar em terra firme. Saímos! Meio espremidos, mas estávamos do lado de fora. Pisamos finalmente em terras sudanesas!

Caminhamos em direção à rápida vistoria das bagagens e fomos um táxi. De cara, o Sudão agradou: todos os táxis eram antigos Defenders. Todos mesmo! E muito velhos. No melhor estilo “Trovão Azul” do Serafim, lá da Bolívia. Olhando para eles, funcionando naquela idade, e lembrando do nosso querido Pezão, praticamente zerado, fiquei com a impressão de que seria possível dar três voltas ao mundo com ele. O sorriso foi inevitável.

Aceitamos a indicação de um hotel e fomos para lá. Tínhamos grande expectativa negativa sobre os hotéis, depois que vimos algumas fotos pela internet de quartos totalmente precários, incluindo charmosos chãos de terra batida. Mas até que o nosso não era tão ruim. Tirando o banheiro comunitário, que era muito sujo e com pouca água, tínhamos até um conforto. Mas esse banheiro... Fomos escovar os dentes e não tinha água na pia. Olhamos ao lado e vimos uma espécie de jarra de plástico com água dentro. Não tivemos dúvidas e usamos a água para escovar os dentes. Pouco depois, voltamos ao banheiro e vimos a mesma jarra plástica funcionalmente repousando ao lado da privada (na verdade, aquela “privada” para você ir de cócoras). Olhamo-nos e demos um sorriso tipo “Bom, era isso que queríamos... ou não?”.

Saímos com o resto do grupo para almoçar, onde, acompanhando os demais, pedimos um peixe frito. Somado ao frango do barco e à jarra plástica, estávamos realmente testando nossas saúdes. Na volta, desabamos no nosso quarto, que possuía um luxuoso ventilador, o que nos permitiu cochilar naquela tarde calorenta.

O Pezão só chegaria na tarde seguinte, então tínhamos tempo livre para papear com o pessoal e andar pela interessante cidade. Wadi Halfa está, na verdade, mais para um vilarejo, e vive em função do ferry semanal e dos processos de imigração e alfândega. Para nós, foi uma curtição andar pelas ruas de areia e cumprimentar o receptivo povo. Toda a simplicidade e baixa velocidade daquele povoado era um alento. Ainda estávamos traumatizados com a confusão do Cairo.

Fizemos nossa papelada de entrada, o que incluiu um inacreditavelmente útil “photo permit” (vale a pena pra quem quer fotografar muito, pois ajuda a argumentar quando alguém vier reclamando que é proibido tirar fotos em todo o Sudão), e começamos nos preparar para a travessia do deserto.

O Pezão e os demais veículos chegaram ao meio da tarde, então decidimos todos sair o mais rápido possível e rodar o quanto a luz permitisse para achar, enfim, um lugar para acampar no deserto. Era realmente uma tranqüilidade poder parar em qualquer lugar e simplesmente estacionar e dormir. A sensação de segurança era imensa. Passamos uma agradável noite a cerca de meio quilômetro da estrada, deserto adentro.

No dia seguinte, Boris e Sandra saíram bem cedo, antes de acordarmos. Para eles, o calor era uma barreira muito mais intensa, então o Sudão teria que ser atravessado mais rapidamente.

Voltamos para a estrada e continuamos o nosso rumo sul, seguindo a margem leste do Nilo. Aquela que prometia ser uma das maiores aventuras da viagem, a travessia do deserto do Sudão, deixou de ser um desafio tão grande assim. Lemos diversos relatos de expedições anteriores contando sobre os três dias dirigindo em péssimas estradas sem avistar um único veículo. Agora, mudou. Foi recentemente construída uma estrada impecavelmente bem asfaltada. O antigo desafio virou agora um passeio a quase cem por hora.

Decidimos, então, tentar cruzar o Nilo e rodar na margem oeste. Foi a busca pela aventura.

O primeiro desafio foi encontrar uma forma de atravessar. Tateando nos mapas, e perguntando sobre pontes ou ferrys, acabamos chegando a um pequeno vilarejo, chamado Wawa. Através de mímicas, fomos orientados a procurar um determinado lugar, onde “seguramente” acharíamos um pessoal que tinha um barco capaz de levar os carros para a outra margem. Encontramos uma pequena casa e estacionamos. O calor nessa hora era quase insuportável: o nosso termômetro marcava 47 graus!

Saímos para tentar conversar com o pessoal local e logo ficamos sabendo que o dono do barco estaria de volta em meia hora. Decidimos aguardar. A descrição do local onde estávamos é complexa: tratava-se de uma casa de tijolos aparentes e chão de terra. O lixo acumulado ao redor mostrava o quanto de saneamento básico aquela gente tinha acesso. Na frente da casa, outra construção igualmente simples dava lugar ao que eles chamavam de “supermercado”. Esse mercado era basicamente um quarto de menos de dez metros quadrados com um único balcão empoeirado. Nas prateleiras, quase que somente enlatados. Não havia sinal de luz elétrica, muito menos de geladeira. Tudo era de uma precária simplicidade.

Como sempre, viramos a atração do lugar. Como sempre, as crianças correram para nos ver de perto. Mas dessa vez foi, para nós, bem mais difícil. A pobreza que envolvia aquelas pessoas, em especial aquelas crianças, não era fácil de encarar. Por mais que sejamos brasileiros, já um pouco acostumados com a pobreza cotidiana, e por mais que tenhamos passado pelo interior de países muito subdesenvolvidos das Américas, Oriente Médio e da própria África, nada se compara com a primeira visão daquelas crianças. Era chocante observar as roupas esfarrapadas, a falta de limpeza e o porte pouco nutrido delas. Ainda mais impressionante era constatar a pacífica convivência delas com as inúmeras moscas pousadas em seus rostos. Não havia como afastar a sensação de agonia ao observar uma menina de uns dois anos de idade, com os lábios feridos, indiferente às moscas que, mais do que pousavam, habitavam sua ferida. Essa menininha, que ficara todo o tempo no colo da sua irmã mais velha, chamava também a atenção pelas suas sobrancelhas cerradas. Ao contrário da irmã, sempre sorridente, ela instintivamente congelou um semblante enraivecido e repelente. O seu olhar me dizia para eu me afastar e deixá-la em paz no seu sofrimento. Nunca antes eu havia presenciado um olhar tão esmagador em ser tão pequeno. Na impossibilidade de verbalizar seu desconforto, dada sua pouquíssima idade, essa parecia ser a sua forma de dizer o quanto sofria.

Pouco tempo depois, chegou o tal dono do barco. Não levou mais do que cinco minutos para percebermos que a embarcação dele não era o que queríamos – não levava carros, somente passageiros. Era, na verdade, uma canoa! Fomos embora para continuar a buscada da travessia do Nilo e levamos conosco a impressão de que aquelas imagens nunca mais sairão das nossas lembranças.

Pouco mais de cem quilômetros ao sul, em Delgo, encontramos o tal ferry. Entramos com o Pezão na última vaga disponível para aquela viagem e combinamos de esperar o resto do pessoal na outra margem. Novamente o povo sudanês foi a atração à parte. Divertimo-nos muito conversando com o pessoal no ferry. A Du, para não perder sua coroa em terras muçulmanas, foi a atração para eles. Ninguém, pra variar, queria uma foto comigo.

Após a travessia de todos, mudamos o rumo começamos a subir ao norte. Já estava bem no final da tarde, então o nosso objetivo era somente nos afastarmos o suficiente para um novo acampamento no deserto. Em pouco mais de uma hora, estávamos novamente estacionados e preparando o jantar.

O dia seguinte foi intenso e agitado. Começamos a navegar na amplitude do deserto seguindo por estradas que, na verdade, estavam mais para simples rastros na areia. Como sempre, a beleza do deserto fez do trajeto um agradável passeio e a areia a minha alegria e do Pezão.

Pouco mais de uma hora depois de sairmos, avistamos uma carcaça de camelo (pausa: na verdade era, como todos que vimos até agora, um dromedário – ou seja, com uma única corcova. Porém, tudo por aqui é “camel”, independente do número de cocurutos. Então, para facilitar, virou tudo camelo para a gente também). Não vacilamos em nos aproximar para observar aquele mórbido monumento da natureza. O esqueleto estava sentado sobre os cotovelos, exatamente como eles ficam quando estão descansando. Era triste e fascinante ao mesmo tempo – assim é a natureza.

Poucos minutos depois, outra carcaça, e dessa vez não era somente um esqueleto. Todo o couro estava praticamente intacto. Paramos mais uma vez para fotografar e filmar. Era pouco antes do meio-dia, e o termômetro já tinha deixado os quarenta graus para trás. Mais um camelo morto. “Caramba! Realmente são muitos!”. Passamos por dezenas deles. Pelo que nos informaram os locais, tratava-se de uma rota de transporte de criadores de camelos para um conhecido mercado no sul do Sudão.  Ficamos, ao mesmo tempo, impressionados com o rigor desse deserto, que faz padecer o animal símbolo da resistência ao calor e à ausência de água, e um pouco tristes por imaginar a crueldade que o ser humano impõe aos animais durante essa migração involuntária.

Nosso objetivo era alcançar algumas ruínas. Na verdade, esse era nosso destino, mas não necessariamente nosso objetivo. Todo o caminho cruzando vales, montanhas e planícies no deserto era o nosso real interesse. Mais ainda: nada se mostrou mais interessante do que atravessar os pequenos vilarejos da região. Montadas sobre tijolos feitos do mesmo barro das ruas, essas casas quase invisíveis mostravam uma parte da nossa civilização praticamente parada no tempo. Não se via uma máquina, nenhum aparelho ou mesmo algum ruído diferente dos sons das carroças e do vento. Nem mesmo uma bicicleta era facilmente avistada. A força de trabalho era basicamente animal. Vez por outra, um automóvel antigo fazia o cenário parecer pertencer, ao menos, ao século XX. Nossa passagem era triunfal aos olhos dos incrédulos sudaneses.

Bastante desacostumados com turistas, esse receptivo povo nos abordava pedindo qualquer coisa, qualquer objeto que fosse. Distribuímos todas as canetas que tínhamos e pequenos xampus de hotel. A Du fez a alegria de uma adolescente ao presenteá-la com um pequeno frasco de creme hidratante. Ressentimo-nos de não termos comprado mais desses simples objetos para distribuir. A riqueza das fotos desse povo fez com que as calorentas noites no deserto valessem à pena.

Chegamos às ruínas, não demos muita bola, e fomos procurar nosso próximo local de pernoite.

Ficamos menos abrigados, o que fez com que a noite fosse bem mais fresca em função do vento constante. Porém, a conjunção entre as refeições difíceis dos últimos dias com o cansaço da rotina dos dias quentes e longos, somada à exposição ao vento durante toda a noite, nos fez amanhecer com a saúde bem baqueada. Estava claro que precisávamos de uma pausa após essa quase uma semana de correria. Podíamos agüentar mais um pouco, mas não queríamos repetir os erros passados e acabar no hospital. Era hora de um descanso.

Sabidos disso, conversamos com o resto do grupo. Queríamos garantir que chegaríamos ao destino programado para o final daquele dia, a cidade de Dongola. Não queríamos mais uma noite no deserto. Nossa intenção era acordar cedo, fazer um passeio de barco para tentar ver alguns dos famosos crocodilos do Nilo e rumar de volta à estrada principal para alcançar Dongola.

Pela manhã, a união da demora em sair com a dificuldade em achar alguém com um barco para nos levar ao encontro dos grandes répteis, nos fez perceber que, naquele dia, ou veríamos crocodilos ou veríamos Dongola.

Nossos companheiros estavam começando a viagem agora, nós, há quase um ano. Eles optaram pelos crocodilos, nós por Dongola – era hora de nos separarmos.

Seguimos os três, eu, a Du e o Pezão, novamente sozinhos. Rumamos sul, na direção do mesmo ferry que nos trouxe à margem oeste no Nilo. O trajeto foi rápido e agradavelmente bonito. Despedimo-nos dos restos mortais de tantos camelos que desistimos de contá-los. A travessia do ferry foi novamente tranqüila, só que dessa vez eu barrei as fotos com a minha odalisca!

Estávamos com grande expectativa sobre Dongola. O livro-guia a chamava de “um excelente lugar para esfriar a cabeça do deserto, tomando um sorvete”. Precisávamos disso! Combinamos em ficar por duas noites e esperar o resto do pessoal. Porém, a chegada em Dongola foi um banho de água fria, ou melhor, de água quente.

Não há nada mais perigoso do que uma expectativa. Sempre trabalhamos isso: manter as expectativas baixas e, se for se surpreender, que seja para melhor. Com Dongola, isso falhou. Pode ser que quem escreveu aquela frase no guia tivesse passado por tanto aperto no deserto que Dongola realmente foi, para ele, um oásis. Porém, após o incrível trabalho do guia de subir nossas expectativas, nos decepcionamos totalmente. Ficamos em um hotel ruim e caro se comparado com outros países. Simplesmente desistimos de descansar por lá e abortamos todas as outras etapas do Sudão anteriores à capital. Decidimos seguir em um único esticão até Khartoum e tentar arrumar um bom hotel por lá para, enfim, poder recarregar as forças.
Dito e feito, rodamos mais de quinhentos quilômetros no dia seguinte em excelentes estradas até Khartoum. Aliás, ponto para as expectativas antecipadamente baixas: as estradas do Sudão, diametralmente opostas aos que esperávamos, são espetaculares. São coisa recente, mas estão lá.

A chegada em Khartoum foi sensacional. Essa é uma das vantagens de se viajar de carro: você não chega pelo aeroporto, chega pela periferia. Por mais que os aeroportos tenham a tendência de serem afastados dos centros das cidades, a chance de conhecermos a real periferia aumenta muito com a chegada de carro. E a de Khartoum era simplesmente fascinante! Filmávamos e fotografávamos sem parar. Recebemos diversos sorrisos e algumas reclamações – sempre a tal história de que é proibido fotografar no Sudão. Como estávamos com um documento que informava que tínhamos pago um qualquer pelo direito de fotografar, seguíamos registrando tudo. O mais impressionante foi um cara com feições meio violentas, apesar de não meter muito medo, mostrando uma faca cuja bainha ficava interessantemente presa no braço. A Du pegou bem a cena.

O trânsito era um caos completo. Certa hora, em um cruzamento, ficamos literalmente presos. Não andávamos pra frente, porque os carros na transversal seguiam em uma lenta fila e não davam a menor brecha. Não conseguíamos tampouco ir para os lados ou para trás. Era um verdadeiro mafuá! Ficou tão engraçado que começamos a filmar. Depois de cinco minutos parados ali eu vi um figura vestindo uma farda azul e um cap e gritei: “Ah! Tem um guarda de trânsito!”. Imagine se não tivesse!

Ficamos um bom tempo nesse lento trânsito, porém, sem a chateação do Cairo, pois o cenário em volta tinha muito mais coisa interessante para ver e muito, mas muito menos buzinas. Mas o dia tinha sido longo, e queríamos chegar logo a algum hotel e a algum ar-condicionado.

Paramos no melhor hotel que achamos e nos hospedamos por três noites. O preço era exorbitante se convertido para dólar. Um absurdo para um país tão pobre. Mas, não tínhamos opção, estávamos realmente exaustos e mal alimentados. Fizemos o de sempre, pegamos o hotel e simplesmente acampamos no quarto. Tivemos direito a varal de roupa entre as cadeiras e uma mesa com fogareiro e tudo mais que uma cozinha precisa. Ou seja, uma mulambice indescritível. Mas extremamente engraçada!

No dia seguinte, nossa estratégia provou ser realmente necessária, pois lá estava eu, na cama, com um baita piriri (saca, diarréia?) e um pouco de febre.

Antes de a febre bater, ainda tivemos que arrumar forças para ir à Embaixada Brasileira. Tínhamos conseguido a informação de que o pessoal da alfândega da Etiópia havia mudado a tradicional conduta para a entrada de veículos e não estavam mais aceitando o Carnê de Passagem sozinho. Havia, agora, a patética demanda de apresentação de uma carta da sua embaixada garantindo que você não venderá o seu carro na Etiópia. Imaginei-me na ingrata tarefa de pedir à Embaixada Brasileira uma carta garantindo algo que eles simplesmente não podiam. Além de tudo, tínhamos ficado com uma péssima impressão das nossas embaixadas depois da visita ao Cairo, mas tínhamos que ir lá de qualquer jeito.

Após certa dificuldade de achar a embaixada, e só chegamos lá com a ajuda dos sempre solícitos sudaneses, nos impressionamos positivamente com o que vimos. A Embaixada Brasileira funcionava em uma bonita casa, muito bem arrumada e cuidada. Não lembrava nem de longe a embaixada do Cairo, com aquele aspecto de Detran dos anos oitenta, incluindo cigarros acesos em ambientes totalmente fechados. Depois de aguardar por poucos minutos, fomos recebidos pelo vice-Cônsul, chamado Carlos Eduardo.

Foi uma recepção diametralmente oposta a que tivemos anteriormente. Ficamos conversando por quase uma hora, e tivemos a oportunidade de contar nossas histórias e ouvir outras tantas. Na hora de falar especificamente sobre a carta, contamos que não tínhamos a menor pretensão de ter um documento assinado por eles garantindo algo que eles não podiam. Pedimos somente para nos darem uma carta informando que eles tinham ciência da nossa longa viagem e que nossa programação incluía a óbvia saída da Etiópia com o carro. Depois de combinarmos que essa carta seria feita no dia seguinte, recebemos, e aceitamos com prazer, o convite para almoçar.

Fomos a um restaurante muito bom, coisa que dificilmente acharíamos sozinhos, e tivemos uma excelente tarde. O Sr. Carlos Eduardo, vice-Consul brasileiro em Khartoum, nessa hora já virara Kdu, nosso amigo. Saímos do restaurante quase às cinco horas da tarde, totalmente à vontade e impressionados com a nossa recepção.

Voltamos correndo para o hotel, e eu, para o banheiro.

Combinamos de tentar ficar o máximo possível no hotel no dia seguinte. A idéia era sair apenas para ir buscar a carta e voltar. Ainda pela manhã, recebemos um telefone da embaixada: era Kdu perguntando se a gente poderia chegar um pouco mais cedo, pois o embaixador queria nos conhecer. Aceitamos, novamente com prazer, e saímos em direção à embaixada. No caminho, uma interessante passagem em uma revenda de peças intitulada “Land Rover Parts” no GPS. A loja era simplesmente fascinante. Um pouco, mais muito pouco mesmo, maior que o “supermercado” de Wawa. Valeu pose para fotos.

Chegamos à embaixada e fomos recebidos pelo embaixador, Antonio Carlos. Foi novamente uma conversa extremamente agradável. Ficamos quase três horas em um papo muito rico sobre o Sudão e suas redondezas. Além de muitas conversas sobre o Brasil e, especialmente, o Rio de Janeiro, terra natal de todos ali.

Sobre o Sudão, falamos muito da guerra civil, sua história e seu futuro em função do resultado do referendo popular que ocorrerá em janeiro de 2011. E histórias mais amenas também, como quando nosso ilustre embaixador foi ao cabeleireiro: estava ele aguardando sua vez e observando um corte que ali acontecia. Segundo ele conta, foram alguns bons minutos de bons tratos no cabelo do figura: creme, escova (aquela redondinha! De colocar entre os dedos!), mais creme, outro penteado. Depois disso tudo... Nhééééééé... O barbeiro mandou ver passando a máquina e jogando todo o tratado cabelo no chão! Demos boas gargalhadas. Na despedida, uma pausa para as fotos com a belíssima bandeira do Brasil hasteada no jardim da embaixada e bons abraços de despedida. Antes, recebemos mais um ajuda para nosso processo de travessia da fronteira: duas bolas de futebol zeradas e duas camisas do Ministério do Esporte. Excelente! Com esses itens, não há fronteira que resista!

Novamente, o Kdu nos convidou para almoçar. Novamente, aceitamos com prazer. Novamente, foi muito agradável e, não menos que novamente, voei para o hotel e para o banheiro.

Antonio Carlos e Kdu, tivemos a oportunidade de escrever por email para agradecer a imensa alegria que vocês nos proporcionaram durante nossa recepção, mas fazemos questão de tornar público, dentro no nosso singelo meio de comunicação, o quanto admiramos o trabalho que vocês estão fazendo e o quanto saímos impressionados com o excelente clima da nossa embaixada. Esperamos que tudo corra bem para vocês nas suas etapas no Sudão e que vocês possam continuar a presentear os viajantes com esse pedaço de Brasil no coração da África.

Saímos de Khartoum com nossa carta em mãos e com o ânimo um pouco mais renovado depois do descanso no nosso Hotel / Camping. Em uma única esticada chegamos a Gedaref, uma pequena cidade bem próxima à fronteira com a Etiópia. Ficamos lá por duas noites, para eu poder fazer alguns serviços no Pezão. Deixei a Du no hotel e rodei pelas ruas de terra atrás de serviços. Na própria calçada de areia, troquei o óleo e as buchas de suspensão, que eu tinha comprado na “megastore” de Khartoum, abasteci, troquei o filtro de Diesel e dei uma boa lavada no nosso amigo de metal – ele já estava ficando amarelo de tanta poeira. Em pouco tempo, eu já era conhecido na pequena cidade sudanesa. Todos me chamavam de Káka e me pediam alguma coisa. Só as bicicletas eu tive que negar umas vinte vezes. Foi um dia divertido, a mais de quarenta graus à sombra.

Seguimos para a fronteira sem dificuldades. Como sempre, íamos acenando e sendo saudados pela estrada. As cenas continuavam chocantes pela pobreza, mas leves pelos sorrisos. As lembranças do Sudão e do seu povo, nessa hora, nos ajudavam a administrar a ansiedade que sentíamos em função de estarmos nos dirigindo para uma fronteira que, pela primeira vez, sabíamos que não tínhamos todos os documentos necessários para passar. Tínhamos lido histórias recentes de viajantes que passaram cinco dias acampados em frente ao escritório da alfândega sem conseguir entrar, e a certeza de que alguma dificuldade também nos aguardava. A pergunta era: “Quanta?”.

O Sudão foi um dos países mais impressionantes que atravessamos. Tivemos dois momentos bem distintos: um primeiro de total imersão na sua simplicidade e na sua pobreza, através da noite no ferry e dos dias no deserto, e outro tentando recuperar a saúde e buscando forças para continuar vendo e registrando a capital e os arredores das estradas.

Que venha a Etiópia, com suas montanhas e sua alfândega, porque nós vamos entrar!






 
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